Como o Brasil pode se tornar uma potência olÃmpica?
As Olimpíadas de Pequim terminaram no dia 24 de agosto e o Brasil voltou com 15 medalhas. Foram três de ouro, quatro de prata e oito de bronze. Ficou na 23ª posição no ranking final dos países.
Mas como China e Estados Unidos conquistam cem medalhas e o Brasil só 15? Por que países com menor investimento vencem o Brasil na lista? O desempenho brasileiro no esporte é ruim?
As respostas podem estar nos investimentos feitos pelo Brasil em esportes e atletas, além da forma como esse dinheiro todo é aproveitado.
De acordo com o deputado Gilmar Machado, do PT de Minas Gerais, que pediu que seja realizada uma audiência pública aqui na Câmara sobre os gastos do Comitê Olímpico Brasileiro, o COB, o desempenho do Brasil não foi ruim. Ele acredita que o País vive um processo de crescimento no esporte.
Essa é a mesma opinião do presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman. Ele, aliás, foi além: considerou a participação dos atletas brasileiros em Pequim a melhor de todos os tempos. Ele acredita que o desempenho não deve ser avaliado pelo número de medalhas, e sim pelo número de finais que o País disputou.
Brasil na frente de Cuba em números de finais
A equipe brasileira participou de 38 finais na China. Número recorde! Mesmo dizendo não concordar com a classificação pelo número de medalhas de ouro, tanto o presidente do COB como o deputado Gilmar Machado destacaram o fato de o Brasil ter ficado à frente de Cuba nesse ranking, país com tradição no esporte. Os cubanos conquistaram 24 medalhas, nove a mais que o Brasil. Porém, apenas duas foram de ouro.
Pela primeira vez, o Brasil conquistou medalhas de ouro na natação, no salto em distância e no vôlei de quadra feminino. Também foi a primeira vez que uma mulher conquistou medalha em esporte individual, com a saltadora Mauren Maggi.
Aliás, os últimos Jogos Olímpicos representaram um crescimento do esporte feminino. Saiu a primeira medalha do judô feminino, com Ketlyn Quadros, e também a primeira medalha da história do nosso taekwondo, com Natália Falavigna.
O bom desempenho das atletas brasileiras é o principal argumento do presidente do COB para considerar a participação em Pequim a melhor de toda a história.
Mas, e os investimentos em esportes?
Ok. As mulheres do Brasil foram muito bem. Mas por que um país tão grande como o Brasil conquista tão poucas medalhas? Segundo o deputado Gilmar Machado, o problema está na formação dos atletas. Ele acredita que o dinheiro destinado ao esporte está mal distribuído. Ele acredita que, para o Brasil se tornar uma potência olímpica, é necessário investir nos clubes e no esporte universitário, que são os responsáveis pela formação mais básica do atleta.
Atualmente, a maior parte do investimento é destinado aos atletas de ponta. Porém, para chegar até esse ponto, o atleta precisa bancar todos os gastos até conseguir um resultado marcante. Foi o caso da judoca Ketlyn Quadros. No início da carreira, a mãe dela não tinha dinheiro nem para comprar o quimono (aquela túnica de mangas largas que os atletas usam nas lutas). Para poder ir ver Ketlyn competir em Pequim, a mãe teve que vender rifas e pedir dinheiro emprestado aos amigos.
Local certo para treinar
Ketlyn teve a possibilidade de receber aulas de graça de judô no início da carreira em um dos centros do Serviço Social da Indústria (Sesi) de Planaltina, cidade satélite do Distrito Federal. Lá, apesar de não receber o equipamento necessário, ela contava com um local para treinar. São centros como esse que o deputado Gilmar Machado acha que devem ser fortalecidos pois, mesmo que no futuro a criança decida não ser atleta, ela terá um local para desenvolver práticas esportivas que fazem bem à saúde.
Porém, nem todos os atletas têm as oportunidades de Ketlyn. É o caso de muitos atletas do ciclismo. José Humberto da Costa, presidente da Confederação Metropolitana de Ciclismo do Distrito Federal, por exemplo, conta que não recebe incentivo nenhum, nem de empresas, nem de Governo estadual ou federal. – As competições são realizadas por meio de investimentos de amigos e muita vontade – explicou.
Ele disse que sofre para conseguir que o Governo forneça uma estrutura mínima, como arquibancadas e liberação das vias para que as competições possam ser realizadas. Para José Humberto, a solução para o ciclismo brasileiro seria a criação de um fundo, uma espécie de cofrinho, no qual fossem sendo depositadas arrecadações de dinheiro que seriam destinadas à evolução da modalidade.
Vale lembrar que o ciclismo é uma das modalidades que mais distribui medalhas nas Olimpíadas. Ao todo são 51 medalhas em disputa. Países como França, Holanda e Alemanha, que ficaram à frente do Brasil nas Olimpíadas, são os que mais conquistam medalhas nessa modalidade.
Projetos do COB são para longo prazo
O presidente do COB explica que o Brasil mostrou, nessas Olimpíadas, que pode conquistar medalhas em várias modalidades diferentes. Esse fato seria motivo de otimismo para os Jogos Olímpicos de Londres, daqui a quatro anos.
O jornalista esportivo Odir Cunha, que cobre Olimpíadas há 30 anos, disse que o Brasil está se consolidando em uma posição de brigar com mais freqüência. Ele lembra que nas Olimpíadas de Tóquio em 1964 a equipe brasileira trouxe apenas uma medalha de bronze, conquistada pela equipe masculina de basquete.
Para Odir, todos nós podemos ajudar o esporte brasileiro a crescer. Para isso, basta apenas começar a ir a competições de esportes menos populares, como o hipismo, por exemplo. Assim, incentivaremos Governo e empresários a investir nesses esportes. Odir Cunha conta que sempre leva os filhos para assistir a competições de várias modalidades e que normalmente não há quase ninguém prestigiando. Quase que só amigos e familiares dos competidores.
Fazer sempre o melhor, segundo o espírito olímpico
Odir lembrou que o espírito olímpico pregado pelo barão Pierre de Coubertin, criador dos Jogos modernos, não incluía a necessidade de conquistar uma medalha para sair bem sucedido de uma Olimpíada. Pierre acreditava que, durante os Jogos, os atletas deveriam procurar fazer o melhor que pudessem e sempre respeitar o adversário.
- Na verdade, a Olimpíada é uma competição de seres humanos, não de nações. Ao menos assim a idealizou seu criador, o barão Pierre de Coubertin, há mais de cem anos atrás.
Ao romper os limites do homem, Michael Phelps (nadador que ganhou oito ouros nas Olimpíadas e bateu sete recordes mundiais) e Usain Bolt (três ouros e três recordes mundiais) conquistaram vitórias para a espécie humana, não apenas para o país onde nasceram. "Esta é a única visão que deveria prevalecer", afirmou o jornalista.
Fenômenos melhoram posição de países pequenos
Dizer que um país foi bem ou foi mal pelo número de medalhas pode passar a impressão errada; pois alguns países como a Jamaica contam com um atleta muuuuito bom, como o corredor Usain Bolt, que conquistou três medalhas de ouro, metade das medalhas de ouro do país. Todas as 11 medalhas da Jamaica vieram de uma modalidade: o atletismo. Outro caso é a nadadora do Zimbabwe, Kirsty Coventry, que conquistou todas as quatro medalhas do seu país nas Olimpíadas.
Publicado no site Plenarinho, com informações do Observatório da Imprensa e do Globoesporte.com
